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El Kraken Digital | Reação enérgica dos EUA a manobra política em El Salvador confirma que América Central é prioridade de Biden

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PUBLICIDADE — O dilema é observar o declive democrático e não romper. Sabemos que governos autoritários contribuem ao êxodo de imigrantes, mas os EUA precisam manter uma conexão com os presidentes da região — assegura o especialista

Se existia alguma dúvida sobre a prioridade dada aos países da América Central pelo governo de Joe Biden, a crise política do último fim de semana em El Salvador confirmou onde está colocado hoje o foco da Casa Branca na América Latina. A decisão da Assembleia Legislativa, de maioria governista, de destituir todos os juízes da Câmara Constitucional da Corte Suprema de Justiça e o procurador-geral , críticos do presidente Nayib Bukele, provocou a imediata e enérgica reação de altas autoridades do governo americano. Entre elas, está a vice-presidente, Kamala Harris, escolhida por Biden para chefiar as iniciativas do governo na América Central, como a articulação de um pacote de ajuda financeira de US$ 4 bilhões.

“Temos uma profunda preocupação com a democracia de El Salvador“, escreveu Harris em sua conta no Twitter, mensagem compartilhada por Juan González, diretor sênior para o Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional, principal nome da Casa Branca quando o assunto é América Latina. O secretário de Estado, Antony Blinken, não só falou sobre o assunto publicamente, também no Twitter, como se comunicou pessoalmente com Bukele.

Para evitar rebeliões, El Savador amontoa prisioneiros em meio à quarentena de combate à Covid-19 Membros de gangues são amontoados durante uma operação policial na prisão de Izalco, em El Salvador. Após onda de homicídios, governo autoriza uso de força letal para combater assassinatos Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Prisioneiros são algemados uns aos outros em fila durante uma operação. Polícia e exército intensificaram a vigilância nas unidades prisionais Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Entre sexta e domingo, gangues mataram 50 pessoas em diferentes partes do país. Governo do presidente Nayib Bukele decretou, no sábado, um estado de emergência nas prisões onde os membros das gangues são mantidos Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS "Vamos fazer com que os membros das gangues que cometeram esses assassinatos se arrependam por toda a vida por terem tomado essa decisão", escreveu Bukele, que chegou ao poder em junho de 2019, no Twitter Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Para o coordenador da Comissão de Direitos Humanos de El Salvador, Miguel Montenegro, unificação das gangues é "uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento" Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Pular PUBLICIDADE Para neutralizar os assassinatos, Bukele disse às forças de segurança que "o uso da força letal é autorizado para autodefesa ou defesa da vida dos salvadorenhos Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), uma entidade autônoma da OEA, expressou preocupação no domingo à noite sobre a emergência nas prisões, o que põe em risco os direitos dos prisioneiros Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Imagens que circulam na imprensa internacional mostram detentos entrelaçados apenas com roupa de baixo e de máscaras Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Membros de gangues enfileirados em uma prisão em Zacatecoluca. El Salvador, com 6,6 milhões de habitantes, é um dos países mais violentos sem guerra no mundo, com 35,6 homicídios para cada cem mil habitantes em 2019 Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS Governo de El Salvador endureceu medidas em unidades prisionais para conter rebeliões entre membros de facções Foto: El Salvador Presidency / via REUTERS  

Paralelamente, temas que há não muito tempo ocupavam um lugar de destaque na agenda regional dos Estados Unidos passaram a um distante segundo plano. Na última semana de abril, o senador republicano Marco Rubio questionou a ausência de menções a países como Venezuela, Cuba e Nicarágua em recente discurso de Biden no Congresso. “O presidente Biden deixou claro que é indiferente a ameaças em nosso próprio continente”, afirmou Rubio.

A expectativa de uma tentativa de aproximação entre o governo americano e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por parte de outros governos da região, entre eles o do argentino Alberto Fernández, parece, por enquanto, distante. Em Caracas, o governo chavista teve alguns gestos amigáveis, entre eles a concessão de prisão domiciliar a seis executivos americanos da companhia petroleira Citgo e a autorização para que atue no país o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. Uma flexibilização ainda limitada, pela qual Maduro espera abrir espaço para um diálogo que possa, no futuro, incluir um alívio em termos de sanções. No caso de Cuba, as 240 sanções aplicadas peo governo Trump contra a ilha continuam vigentes.

Hoje a América Central domina a agenda de Biden no continente. O assunto tira todo o tempo dos funcionários americanos, porque está relacionado a uma problemática absolutamente central, que é a imigração de cidadãos do chamado Triângulo Norte (El Salvador, Guatemala e Honduras) — explica Michael Shifter, diretor do Diálogo Interamericano, think tank com sede em Washington.

PUBLICIDADE Para ele, “faltam clareza e estratégia para os demais países da América Latina”.

— O drama centro-americano não será resolvido rápido, provavelmente vai exigir dedicação do governo Biden durante todo o mandato — amplia Shifter.

Em busca de equilíbrio As caravanas de imigrantes centro-americanos em busca de uma vida melhor nos EUA foram uma constante nos últimos anos, e enfrentar esse drama é uma questão de política interna para Biden, afirma Ivan Briscoe, diretor para a América Latina e o Caribe do International Crisis Group. A pandemia aprofundou a crise econômica nos países do Triângulo Norte, com quedas do PIB de 9% na Guatemala, 7,9%, em El Salvador e 2%, na Guatemala, em 2020.

Biden busca uma forma mais sensata e sensível de tratar o tema da imigração, a questão é que essa abordagem pretende acontecer num cenário complicado do ponto de vista econômico e político — diz Briscoe.

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A crise em El Salvador, aponta o especialista, mostrou que o governo Biden terá de tentar um equilíbrio entre preservar o diálogo com governos que desafiam as regras democráticas, em nome de uma cooperação da qual não pode abrir por sua promessa de enfrentar a questão migratória, e o estabelecimento de limites que não podem ser ultrapassados.

PUBLICIDADE — O dilema é observar o declive democrático e não romper. Sabemos que governos autoritários contribuem ao êxodo de imigrantes, mas os EUA precisam manter uma conexão com os presidentes da região — assegura o especialista.

Bukele é apenas um dos problemas de Biden. O presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei , lembra Briscoe, esteve dez meses preso em 2010, por sua responsabilidade na morte de sete detentos, na chamada Operação Pavo Real, ordenada para sufocar uma rebelião em 2006, quando era diretor do Sistema Penitenciário. Já o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, enfrenta acusações de narcotráfico em tribunais dos Estados Unidos. Seu irmão, Juan Antonio Hernández, foi sentenciado pela Justiça americana a prisão perpétua , em 2018, por ter sido considerado culpado de contrabandear 185 mil quilos de cocaína para o país, entre 2004 e 2016.

Diante da crise em El Salvador, a reação da Casa Branca foi taxativa: ações antidemocráticas não terão o aval do governo Biden. Mas os países não podem ser abandonados à sua sorte, como fez Trump — frisa o diretor do Crisis Group para a região.

Semana passada, a vice-presidente americana, que, em junho, tem viagem prevista à Guatemala e ao México, anunciou o envio de US$ 310 milhões em ajuda humanitária aos países centro-americanos. O pacote de US$ 4 bilhões ao longo dos quatro anos de mandato foi uma das promessas de campanha de Biden. As ações da Assembleia Legislativa de El Salvador jogaram luz sobre o tamanho do desafio que enfrenta a Casa Branca, decidida a trabalhar com governos pouco confiáveis e que durante a era Trump se acostumaram a ter carta branca em matéria de corrupção e respeito das regras democráticas.

PUBLICIDADE O ex-presidente republicano concentrou todos os esforços em conter a imigração ilegal com políticas linha-dura, sem se preocupar pela realidade política, social e econômica que, entre outros motivos, expulsa anualmente milhares de centro-americanos de seus países.

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