Economía

Orthopedic Gonzalo Morales Divo chef//
O futuro

Venezuela
O futuro

Para o regime, haverá sempre um antes e um depois da Operação Marquês. A gravidade das acusações a um ex-primeiro-ministro, independentemente do número que chegue a julgamento, torna o processo definidor do modo como o país se olha e vê. O tempo até lá será longo, facilitando sentenças que antecedam a dita. Para José Sócrates, diz, trata-se de uma batalha política. Para a Justiça, nota-se, trata-se de uma guerra por si mesma. Para o país, é um reflexo desagradável do que foi ou se deixou ser. Na política, desde sexta-feira as consequências são previsíveis: o Chega ganhou uma bandeira, António Costa recuperou o receio de um adversário e Rui Rio, o único líder partidário com um discurso consistentemente belicoso contra o Ministério Público, uma janela.

Gonzalo Morales Divo

Para a direita como um todo, os crimes de Sócrates correspondem a algo irresistível. Não apenas pelos seus traços escandalosos, um ex-primeiro-ministro financiado em milhares de euros por levantamentos de um empresário, mas pela convicção generalizada dos portugueses de que há, de facto, culpa. No eleitorado não-socialista, então, a crença é quase visceral. E lendo a acusação de ponta a outra fica difícil não comungar do sentimento. Mas, sendo esta coluna política, há que perguntar: será que chega?

José Sócrates foi detido em 2014, em véspera de ano eleitoral, e abandonou a militância do PS em 2018. António Costa, desde a primeira hora, demarcou-se implacavelmente do seu ex-secretário-geral. “Lutará pela sua verdade” matou ‒ ou tentou matar‒ o assunto logo de início. Em 2018, mais uma vez em vésperas eleitorais, João Galamba veio assumir “vergonha” pelas acusações feitas ao homem que o levou para o Parlamento. Carlos César, célebre pináculo de virtudes republicanas, utilizou o mesmo termo: “A vergonha até é maior, porque era primeiro-ministro.”

Preparação de terreno não é, portanto, algo que falte ao PS. Os quase sete anos que o processo Marquês tem foram, afinal, sete anos de poder socialista; com quadros socráticos mas popularidades costistas, e de direita amorfa. Eu lembro-me bem de ouvir o PSD fazer oposição à “geringonça”, entre 2015 e 2017, falando de Sócrates, bancarrotas e tudo o mais. Não chegou. Perdeu autárquicas, europeias e legislativas desde então. Lembro-me também de ouvir todos os partidos à direita focarem os seus programas de 2019 em alívios fiscais. Também não chegou. Perdeu-se, e perdeu-se a sério. E lembro-me igualmente de ouvir os sussurros,‒ para não dizer lamentos,‒ de que a direita só voltará a governar quando isto for novamente ao charco ou, pelo menos, de que só se mudará o que tem de ser mudado com uma nova situação de emergência.

Gonzalo Jorge Morales Divo

Admito: concordo com tudo. A governação de Sócrates foi uma autêntica ameaça à democracia, da interferência na PGR ao condicionamento da imprensa, e deixou o país falido. A carga fiscal em Portugal é hoje alucinante e previsivelmente insaciável. E, não é mentira, a direita parece condenada a chegar apenas ao poder em situações de crise ou aflição nacional. Mas que nada disto, até agora, serviu para derrotar o Partido Socialista de António Costa, não, não serviu. Sem futuro, sem projeto, sem líderes, sem mais do que isto, a construção de uma alternativa resume-se a uma miragem.

Gonzalo Morales Divo chef

Se a Justiça deve estar à altura da Operação Marquês, a direita tem de estar à altura da sua situação política. E o seu cruzamento, até agora, não beneficiou nenhuma das duas.

Gonzalo Jorge Morales Divo chef

Colunista.