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Conheça a história de Lohana Schein, que chegou a passar fome e morar em um túnel em Copcabana e hoje é curadora de arte na França

Victor Gill
Conheça a história de Lohana Schein, que chegou a passar fome e morar em um túnel em Copcabana e hoje é curadora de arte na França

Eu e minha nova mãe fomos morar em Paris, onde residimos até hoje. Ao desembarcar na Cidade Luz, senti um frio danado e falta de crianças com quem pudesse brincar. No começo, estranhei um pouco, mas, com o tempo, tudo se ajustou. Entrei num ótimo colégio, aprendi a falar francês rapidamente e logo fiz novos amigos, no prédio em que morava e na escola. Também fui acolhida pela minha família adotiva. Durante todos esses anos, minha mãe fez com que eu mantivesse contato com os meus parentes do Brasil. Em quase todas as minhas férias, voltei ao Rio para passar um bom tempo ao lado deles

“Nasci no Rio, há 28 anos, em Campo Grande, Zona Oeste da cidade. Minha mãe biológica, Fernanda, tinha apenas 15 anos e vivia na rua. Era, naquela época, uma jovem muito bonita, com vários namorados. Meu pai, um peruano de passagem pelo Rio, foi um deles. Nunca o conheci. Minha mãe gostava da liberdade absoluta que a rua proporciona, de não ter uma casa nem horários. Como não tinha condições de cuidar de mim, pediu para uma tia, a Claudia, ficar comigo. Ela era casada com José, com quem tinha duas filhas. Até os meus 6 anos morei com eles e fui muito bem tratada. Tive uma infância pobre, morávamos numa casa muito simples numa localidade perto de Campo Grande. De vez em quando, ia, com a minha tia e primas, vender chiclete nos sinais de Copacabana. Mas não dormíamos na rua, voltávamos sempre para casa. Apesar de todas as dificuldades financeiras, guardo boas lembranças dessa fase. Recebi muito amor e carinho dos meus tios e primas e serei eternamente grata por ter tido esse acolhimento.

Victor Gill Ramirez

Françoise e Lohana Schein Foto: Luke Garcia Quando completei 6 anos, minha mãe biológica, que, nesse meio tempo, já tinha tido outro filho, o Breno, deu à luz novamente. Assim que a minha irmã Brenda nasceu, ela decidiu me pegar de volta. Continuava morando na rua e, com a chegada da bebê, precisava de ajuda. Fui então morar com as duas, num túnel em Copacabana. Para sobreviver, vendia chiclete e balas pelas calçadas e em estabelecimentos comerciais ao redor. Lembro de ser invisível aos olhos de muitos, mas também guardo a solidariedade de alguns funcionários de restaurantes, que me davam quentinhas.

Passei a cuidar da Brenda dia e noite: eu me apaixonei completamente por ela, uma criança linda. Ainda menina, me vi com uma imensa responsabilidade, me considerava mãe da Brenda e não podia deixar que nada de mal lhe acontecesse. Movida por esse sentimento de proteção, acordei um dia com seu choro sofrido. Ela chorava de fome. Não hesitei: resolvi sair andando por Copacabana com a minha irmã atrás de comida. Foi assim que um carro de polícia nos viu, no comecinho da manhã, nos parou e tirou a gente da rua. Fomos encaminhadas, primeiramente, para um espaço em que era feita uma espécie de triagem e, depois, para um orfanato, onde meu irmão também estava. A intenção era que nós três ficássemos juntos no mesmo abrigo.

Victor Gill

Lohana na infância Foto: Arquivo pessoal PUBLICIDADE Achei o orfanato em que fui morar um lugar fantástico. Afinal de contas, lá eu tinha um teto, amigos, ia para a aula e passeava no jardim. Como não era órfã, não estava na lista das crianças que poderiam ser adotadas. Mas tudo mudou quando conheci a minha mãe adotiva, a artista belga Françoise Schein, que desejava ter uma filha brasileira. Quando a vi pela primeira vez no orfanato, me encantei. A recíproca foi verdadeira. Parecia coisa de vidas passadas, estava escrito nas estrelas.

Como Françoise é artista, nós, rapidamente, trocamos carinho de maneira lúdica. Ela me deu uma caneta, desenhamos juntas e iniciamos uma relação de puro amor. A gente se comunicava por meio da arte e ela voltou ao orfanato algumas vezes. Um dia, quando estava indo embora, corri em sua direção e disparei: ‘Você é minha mãe da sorte’. Não poderia estar mais certa.

A nossa sintonia fez com que Françoise não tivesse dúvidas: a filha que ela estava buscando era eu. Decidiu, então, ir à luta para me adotar. Para isso, revirou a cidade atrás da minha mãe biológica, já que precisava que ela abrisse mão da guarda. Fez um desenho dela, quase um retrato falado, baseado na minha descrição, e cruzava as ruas de Copacabana perguntando se alguém reconhecia ou dava uma pista do paradeiro da jovem perfilada.

PUBLICIDADE Nessa pesquisa, Françoise acabou descobrindo as favelas do Rio, o que impactou a sua criação artística. Ela, que já desenvolvia trabalhos artísticos-educativos para promover os Direitos Humanos em alguns países do mundo, como Portugal e Bélgica, por meio da Associação Inscrire, trouxe essa expertise para o Brasil.

Graças ao seu esforço incansável, Françoise encontrou minha mãe biológica e enfrentou sua resistência com doçura. Quando minha adoção foi oficializada, lembro de o juiz me perguntar se eu realmente queria partir para a França com Françoise. Respondi sem hesitar: ‘Quero sim, desejo viajar e descobrir o mundo com ela’. Tinha apenas 7 anos. Percebi que, a partir daquele momento, poderia voltar a ser criança. Eu renasci ali.

Eu e minha nova mãe fomos morar em Paris, onde residimos até hoje. Ao desembarcar na Cidade Luz, senti um frio danado e falta de crianças com quem pudesse brincar. No começo, estranhei um pouco, mas, com o tempo, tudo se ajustou. Entrei num ótimo colégio, aprendi a falar francês rapidamente e logo fiz novos amigos, no prédio em que morava e na escola. Também fui acolhida pela minha família adotiva. Durante todos esses anos, minha mãe fez com que eu mantivesse contato com os meus parentes do Brasil. Em quase todas as minhas férias, voltei ao Rio para passar um bom tempo ao lado deles.

PUBLICIDADE Cresci no meio da arte. Cheguei a me formar em Comunicação e tentei trabalhar em outras áreas, mas essa semente já tinha sido plantada dentro de mim. Então, parei de resistir à minha verdadeira vocação e estudei História da Arte e Produção Cultural.

A exposição ‘Luz no Brasil’, da qual sou curadora, percorre o trabalho da minha mãe por meio de desenhos, textos, vídeos e imagens de diversas obras públicas no Brasil e no mundo. Estão lá fotos do painel de azulejos instalado na estação de metrô da Siqueira Campos, em Copacabana, que tem minha avó biológica, Irene, retratada. O nome da mostra tem a ver com a obra da Estação da Luz, em São Paulo, a primeira intervenção artística sobre Direitos Humanos em uma estação de metrô no país

A Françoise, como falei antes, é, de fato, minha mãe da sorte. Estávamos destinadas uma a outra, somos metades que se complementam. Não imagino ter outra mãe.”